Arquivo do mês: outubro 2011

Rebotar é preciso, viver não é preciso

A cerca de um mês a DC Comics em uma jogada buscando angariar novos leitores, apagou e reiniciou (ou como dizem “rebotou”) a história de quase todos personagens da editora.

Essa iniciativa causou um baita barulho e foi amplamente debatida do ponto de vista criativo, econômico e até cultural dado algumas novas abordagens marketeiras polêmicas, como essa aqui ou essa outra.

E por mais que eu torça o nariz para essa história toda, tenho que reconhecer que a editora foi bem sucedida no que se propôs (que para mim foi: “Dane-se você nerd velho, seus 25 anos de leitura fiel e pilhas de revistas, pois vamos mudar tudo em busca de um público maior, afinal sabemos que você vai continuar comprando mesmo que contrariado”) pois  esgotou todas as tiragens das 52 novas revistas lançadas e emplacou 17 entre as 20 mais vendidas pelos Comics Shops americanos

Considerando que as revistas foram vendidas digitalmente um dia após a edição física esses números tem mais relevância ainda

Mesmo com as críticas sobre a qualidade de alguns títulos, o apoio à essa iniciativa foi maciço, já essa guinada radical pode indicado a direção para o mercado de quadrinhos americanos que vem encolhendo ano após anos.

Isso posto, fica decidido então  que o reboot é a solução!

Podíamos rebotar toda a história política recente do país, que tal? Limando da continuidade todas essas figurinhas carimbada que estão por aí pulando de galho em galho e corrompendo todo o jogo desde a época hiboriana.

E na vida pessoal? Aquele pé na bunda homérico tomado? Não aconteceu a pessoa, nunca existiu. Aquela barriga indesejada se tornaria um abdomen trincado (criado pelo Jim Lee!). E aquele penâlti não marcado na final da Libertadores de 94? Gol na certa.Chupa Chilavert!

Bem que podia  ser fácil assim.

(Claro, podemos sempre contar com a amnésia alcoólica, mas infelizmente ela não é tão seletiva assim)

One last thing


(arte de Jonathan Mak)

E Steve Jobs se foi.

Em momentos de uma perda desse porte  a tendência ao exagero é natural. A legião de fãs da Apple irá (se é que isso é possível) canoniza-lo ainda mais e aqueles que sempre o olharam com desconfiança irão clamar que esse tratamento de messias dado á um CEO de uma grande corporação é de uma ingenuidade sem tamanho.

Mas o fato é: esse cara, santo, visionário, carrasco, arrogante, genial, genioso (e aqui poderíamos colocar um série infinita de adjetivos por mais antagonicos que eles sejam) mudou sua vida, mesmo que você nunca tenha tido ou pensado em ter um produto da Apple.

Se você já usou um computador independente do sistema operacional,um mp3 player, um smartphones, independente da marca ou modelo com certeza lá tinha um toque do perfeccionismo de Jobs.

Por que as criações, idealizadas ou capitaneadas por ele, foram a inspiração para quase tudo que foi lançado em tecnologia nos últimos 25 anos. “Ele forçou todos a dar um passo à frente” eis um lugar comum (verdadeiro) normalmente empregado quando o assunto é Steve Jobs

Além da revolução que causou na música com a iTunes Store enxergando um modelo de negócios viável para a música digital, do bem sucedido modelo de varejo adotados nas Apple Retail Store, no cinema através da Pixar, nos games com os jogos da App Store, e por aí vai.

Mas seu maior legado foi que fez tudo isso seguindo um caminho próprio, quase sempre contrariando o mercado e os especialistas de plantão e, se não foi bem sucedido em tudo, o que vingou “mudou o mundo”.

Eis outro lugar comum que tentei evitar, pois pode parecer que ele criou uma empresa beneficente que tinha como missão apenas inovar e trazer o bem para humanidade.
Mas isso é mais um lance genial, ele transformou a Apple na empresa de maior valor de capital do mundo e ela continuou sendo adorada como se estivesse ainda em uma garagem desafiando o sistema. Não recebeu aquele ranço que normalmente todos temos com as grandes corporações. A empresa chegou onde chegou sem perder aquele espírito outsider de seu criador.

Eu trabalhei durante quase 3 anos muito próximo a tudo isso, vivendo essas coisas no dia à dia sempre com o cuidado de não virar um fanático/religioso em relação à Apple e ao Steve Jobs como se ambos estivessem acima do bem e do mal.
Em certos momento achava esse culto exagerado tão chato quanta as críticas “birrentas”e infundadas.

Mas, quando ouvi a notícia não consegui evitar de sentir como se tivesse perdido alguém próximo. Não consegui evitar de pensar que era mais um que o câncer tinha tomado da minha convivência. Não consegui evitar de escrever essa porra de texto piegas para cacete.(Só para não perder o hábito de enfiar um palavrão nos textos daqui)

Enfim, só me resta agradecer e desejar que parte de sua força criadora continue se espalhando pelo mundo todo.

Só mais uma coisa:

Talvez por conta da empresa ter quase quebrado uma vez ou por ter sido chutado da empresa que criou, Jobs impregnou por toda Apple a idéia de que mesmo que você esteja no topo no momento, por mais que as pessoas digam que você é incrível hoje, no dia seguinte você deve voltar a trabalhar duro para se manter na frente melhorando cada vez mais.

Tenho certeza que onde quer que ele esteja (mais um lugar comum, devo ter quebrado algum recorde…) deve estar grato por toda comoção e homenagens do dia de hoje. E que se pudesse emitir um comunicado seria para que amanhã todos pudessem voltar ao trabalho e, cada um a sua maneira, tentar fazer a diferença.