Tentei evitar, pois escrever sobre o assunto ia ser, mesmo que de maneira insignificante, participar desse circo da mídia, mas depois que vi a reportagem que vou descrever abaixo não consegui resistir:
Voz em off da repórter:
“Fulana de tal,faltou ao trabalho e pegou 2 ônibus e um metrô para vir aqui acompanhar a movimentação…”
O “aqui” a que ela se referia não ouvi onde era mas era a casa de alguém envolvido no “vocês sabem o quê” ou uma delegacia. Continuando…
A Fulana de tal começa seu depoimento bem…( ou melhor) muito maquiada com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas:
“…eu fico muito emocionada, sou mãe também a gente pensa nos nossos filhos…”
A matéria segue, mas eu não presto mais atenção prefiro me dedicar a elaboração cuidadosa de um fulminante ataque colérico.
Se eu fosse o repórter (nessas horas que me arrependo de ter desistido de me tornar um jornalista) teria duas reações:
1° Emendaria um delicado: “por que a senhora não vai tomar no cú ?”
2° Depois, jogaria ela de volta, dentro dos 2 ônibus e 1 metrô que ela pegou (sim, a acompanharia a viagem toda) para que ela voltasse para casa dela e a partir daquele momento parasse de se preocupar com a vida dos outros e começasse a pensar no futuro dos filhos, que hoje, vivem num mundo de merda.
Porra,queria entender o quê leva pessoas a saírem de suas casas e ficarem paradas em frente a casa de estranhos, mesmo que o crime seja tão hediondo quanto obrigar alguém a ouvir a discografia completa do Djavan, gritando palavras de ordem do tipo “pega, capa, esfola”, “assassino”, ou “Toca RaúúúúLLL”
Dizem os especialistas: é um crime bárbaro,envolve família e valores hoje esquecidos pela sociedade blá blá blá… por isso essa comoção.
Besteira!O negócio é que o brasileiro gosta tanto de novela, que quando vê uma acontecendo ali, na vida real não perde a oportunidade de participar dela mesmo que seja como figurante.
O pessoal ali quer sangue, justiça, um mundo melhor, pena de morte, fazer passeatas, maioridade penal, paredão, que as baleias sejam salvas, ou o caralho que for, enquanto o assunto estiver na mídia, sendo entuxado goela abaixo, enquanto seguir o script for interessante, enquanto isso garantir pontinhos a mais de audiência.
Depois de um tempo tudo é esquecido e só volta a tona quando acontece outra tragédia e começa nova novela.
Essa histeria coletiva podia, pelo menos, ser direcionada para questões políticas na tentativa de nos impor e fazer valer nossos direitos. Mas que nada, provavelmente a dona Fulana de Tal não sabe nem em quem votou nas últimas eleições e em como isso valeria muito mais para os filhos dela do que ela estar ali, matando o tampo e dando entrevista.
Nessas horas dá até vontade de ser argentino…ou sei lá, uma beterraba.